Na procura por diferentes, encontro tantos semelhantes.

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Conheci o Pedro saindo da festa do MoMA, no PS1. Ele estava com a namorada, um casal maravilhoso (New York Lovers – Night ; ) Passamos o resto da noite conversando. Outro dia fui vê-lo pintar um mural numa galeria do Queens. O gajo é tão interessante, tem uma alma tão de artista, que gravei umas perguntas que fiz para ele. Ele fala umas coisas..

Abaixo vai o texto dito, como merece ; )

legenda:
(…) português de portugal indecifrável
(__________) metrô


Senhor Pedro Cunha, há quanto tempo você pinta?
Eu já pinto desde sempre, tive até a ver umas imagens que meus pais guardavam desde que eu era miúdo, (…) não há um tempo inicial, tas a perceber, mas comecei a assimilar coisas mesmo de pré-sítios pra pintar e com amigos reuni grupos, praí aos 14 anos, se calhar.

E você começou pintando quadros ou já foi para a rua?
Eu comecei mesmo foi na cena acadêmica, teve um pintor que me ensinou sempre um monte de merdas e depois então comecei mesmo a me interessar por sprays, grafitis, as cores fluor, comecei a conhecer outras coisas desse filme e comecei a curtir bem esta expressão. Despreocupação. E começaram a acontecer outras coisas a expandir, a expandir, as tantas. Minha expressão transformou-se, tem a ver com a vida que eu tive também, não vivi propriamente na bula, vivi na rua e essas merdas todas lá em Portugal. Então eu tô ligado a isso, tás a perceber, aos sentimentos que as pessoas tem quando estão na escassez, o grafiti foi a expressão que eu procurei (_______________) eu ando na rua, pá, e ainda por cima, sou um revoltado contra o sistema. Custa-me, imagina, neste momento preciso, há pessoas a passar fome, ou mesmo uma mulher a levar porrada do marido aqui, agora, não é que agora vais me dizer que isso não te revolta, e se calhar é como vai a expressão de rua. Depois a revolta contra o sistema todo de pintura, e contra essa tralha toda. Andam a nos obrigar (…) eu não acredito como é que nos dizem como devemos fazer, tens que fazer assim, pá, isso não me interessa, tenho que fazer o que me apetecer, eu próprio dentro de mim tenho limitações que estou tentar a arrebentar que são frutos dessa tentativa que eu fui fazendo sempre de se dar pelo desconhecimento, (________________) tens que fazer isso, tens que fazer aquilo, não, eu posso fazer o que me apetece desde que haja energia, seja lá o que for, (______________).

Tem algum artista que tenha te inspirado?
Há uns montes deles, de vez em quando apareciam uns que chamavam mais minha atenção, desde esse tempo todo. Tive aqueles todos, que toda gente tem, os clássicos todos, mas aqueles que me influenciaram mais, meus pais eram arquitetos desenhavam, essas coisas todas, eu via imensos livros lá em casa, e eu passava muitos tempos a ver os livros lá, como quem vive a desenhar, nem lia quase nada, via só a bonecada, então fui recebendo aquelas imagens, visualmente eram os expressionistas (…) 1920, (_______________) que eu não conseguia muito bem compreender a arte contemporânea, fui compreender praí há uns 5 anos se calhar consegui olhar, mas agora eu cheguei a uma altura em que eu deixei de conseguir atribuir valores as coisas, tas a perceber, eu consigo olhar para uma coisa que aparentemente não lhe diz nada, se eu conseguir tirar uma coisinha que seja dessa coisa que seja que se calhar há algo que eu possa fazer já fico satisfeito. Pra mim essa coisa passou a ter um valor. Porque as coisas tem seu espírito. (…) É que não me interessa a formalização das coisas, interessa-me o que está por trás das pinceladas e das linhas (…) interessa-me o que é que estou sentindo aquela altura, de onde é que eu venho, para onde é que eu vou, com quem eu estou. Eu, por exemplo, pra este muro que estou a fazer agora, eu fiz uns desenhos, mas não tá nada a ficar, eu faço uns desenhos de intenção que eu tenho, não é de formalização precisa. Eu cheguei a de fazer fases, eu tava a trabalhar o feio. Fazia coisas feias. Queria fazer coisas mesmo feias, queria que o preto fosse a cor do amor e que o vermelho fosse a cor da escuridão.

Você leu meu pensamento, porque eu ia te perguntar agora mesmo, eu vejo a sua expressão, ela está muito no preto, eu queria saber, eu queria saber o que você faria se lhe tirassem o preto?
Eu fazia na mesma. Eu já pintei com relva, com terra, com groselha, com sangria, com cerveja. Eu pinto com o que eu tenho à mão. Outro dia mesmo estávamos numa bancada cheia de merda e disse “vamos meter logo a mão nisso e pintar alguma coisa” e há uma coisa muito gira. Eu usava todas as coisas. Aparecia as coisas no mercado, comprei logo, eu gosto de experimentar, eu tô num sítio, por exemplo aqui. Eram aquelas cores que eu tinha, (__________________) Por que não se pode usar esta prancha se esta prancha existe? Por que não pode fazer isso? Se existe, por que não pode fazer? Por que não posso usar o dedo para pintar a carvão? Por que não posso fazer riscos e descamar? Se me apetecer? Quem é que disse? Quem é que foi a primeira pessoa que se lembrou de dizer que isso não é possível? Pá, essas pessoas limitadas.

Dinheiro na vida de artista, ainda mais pra quem trabalha na rua, como é?
Já andei a cravar trocos, já andei a fazer viagens não sei para onde, estava mesmo preso em Lisboa e não imagina que pudesse sair daquele país, (…) acordar as 5 da manhã sem um tostão no bolso, sem tabaco, ter que andar a procura (…), não ter fé, não comer, ja passei por tudo mais alguma coisa, vendia quadros, gastava tudo, porque me habituei a ter dinheiro. Foi a minha primeira vez na vida agora, fiz uma grande exposição em Lisboa. Não há gestão. É viver simplesmente daquilo que vai acontecendo, tas a perceber. Se aparece, aparece é pra curtir, é pra fazer alguma coisa. (_____________________) Agora na volta tenho minha exposição individual em Lisboa, tem também vamos reunir toda a gente, 25 artistas a pintar 25 muros em comemoração a 25 anos (…) de Lisboa. Depois vamos a Paris. Sabe como é que é? É que foi mesmo um trabalho da grande, já tive problemas com drogas, já tive 9 internamentos em sítios de drogas e psiquiátricos, eu tô bem agora, é como assim, a loucura é um rio, tas a perceber, e há pessoas que se propõe a atravessar o rio, há pessoas que ao atravessar o rio ficam na corrente e se arrastam e há outras que conseguem atravessar o rio e chegar ao outro lado da margem do rio, quer dizer, já não, já não estou num estado da alma, num encaixe da realidade ideal. Ainda não sinto aquela segurança permanente mas me sinto cada vez mais próximo. Depois essa relação com as coisas, com as cenas, a realidade já confia de alguma maneira em nós, sabes que pode contar conosco, pá, eu fui tão firme na minha forma de encarar as coisas e fudi-me tanto e dificultei se calhar a vida da minha família com os propósitos da minha luta. Pessoas com alma e com amor àquilo que fazem (_______________). Se eu começo a controlar demasiado aquela técnica, a densidade dessas imagens começa a desaparecer, porque já começa a ser uma facilidade tão grande em fazer que já deixa de dar gosto fazer, parece que não vale a pena fazer infinitamente aquelas coisas. (_________) Tu estas aqui, não é? Tas ligada a uma data de coisas que não estão aqui, mas estão aqui porque tu estas aqui. Então eu tô aqui a pintar, é um gasto de energia gigante, tas a ver, é preciso estar com certo tipo de conforto, não há limites, de qualquer forma.. não. há uma fronteira, sim. Há aquela altura, tas mesmo a borrifar, tas a ver não estas mesmo nada preocupado, podes grrrrrr, sinto ainda, por causa da escola que tenho, da cena do querer saber fazer, as regras todas que me mandaram ter que controlar, isso agarra mesmo, se calhar neste caminho, ficas mesmo a inclinar neste sentido, então extrapolar, pá, pra aquilo, e o medo, o medo é pra mim uma coisa que existe muito na pintura, porque o medo é o nome da fronteira. e esse medo vai sempre sendo posto mais a frente. vais sempre a caminhar e a empurrar a fronteira do medo. é uma coisa estúpida. é só uma tela, podes fazer o que te apetecer, mas é uma coisa bruta, pesa, eu queria entrar num filme em que as coisas fosse só prazer. Parece que tem que conseguir mesmo alguma coisa, aí vira mesmo uma merda, tem que tá sempre a focar, querem sempre atento, pra aproveitar mesmo as coisas (___________________).

As fotos são de partes do mural, que era um corredor longo e apertadinho. Não teve como tirar uma geral, sabe.

Blog do Pedro e da Sofia: galerianomada.blogspot.com e Flickr: www.flickr.com/photos/pedro_cunha


Encontrar num outro parecido, ou num outro muito diferente, o amor. Nova York junta chinesa com inglês, jamaicano com espanhola, americana com canadense, inglês com alemã, irlândes com húngara, homens com homens, mulheres com mulheres. Amor do mundo todo, de todo jeito, de um jeito que não tem em nenhum outro lugar do mundo.

Fiquei apaixonada. e comecei a registrar. New York Lovers é o meu projeto para as aulas de fotografia documental. O amor à diversidade. O amor à liberdade. O amor por essa cidade. O meu amor pela fotografia.

Estas são as primeiras fotos. Quero criar, melhorar e aprender muito mais ainda. Espero que vocês gostem.

de nova york,

Sofia.

para ver mais trabalhos de um dos fotojornalistas mais fantásticos dos nossos tempos, clique aqui >> David Gillanders

*update: a lente dele entra dentro da história.

uh! faria até uma loucura pra ter um quadro da Chloe Early na parede.


Lições das aulas de People and Places.

Fessor mandou eu ver muita coisa do Lee Friedlander, fotógrafo americano de olhar rápido, criativo e interessante.
Mais fotos dele aqui.