Divulgue, por favor

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Para ajudar Israel vamos dizer: não concordamos com sua política!

Ilana Polistchuck – jornalista e médica – 29/12/2008

Não sei o motivo pelo qual nós judeus do mundo inteiro temos de concordar com a política do governo de Israel. Parece uma obrigação dogmática, um mantra, uma mitzvá. Ai daqueles que discordam, são olhados como traidores dos sobreviventes do Holocausto, ou seja, (esqueceram?) nós todos. A solução final nazista abrangia todos os judeus do mundo. Perdão, negros, gays, ciganos e comunistas estavam cotados também para o pacote.

Estudei em escola judaica, no Rio de Janeiro, dos 4 aos 15 anos de idade. Sabem o que aprendíamos sobre os palestinos? Nada. Israel, pelos nossos livros, havia sido criada em uma área semidesocupada, um deserto. Quando, anos mais tarde, cônscia do imbróglio palestino, busquei escolas judaicas para minhas filhas, muito pouco tinha sido modificado. Permanecia a mesma propaganda vazia de dados verdadeiros, a mesma traição histórica, falta de reflexão, ausência de dados sobre o que havia sido o movimento europeu sionista com o desenlace da criação de Eretz Israel, tenha sido para o bem ou para o mal. Nada disso: Israel é um país perfeito, aprendíamos e aprendemos.

Como todo judeu, eu não conseguia entender a reverência a duas bandeiras, a do Brasil e a de Israel. E não entendia por ser esquizofrênica esta construção, na verdade, uma montagem ideológica falsa, que dissocia território de nação. Considero um crime instituir ideologia nacional em quem não pode comportá-la culturalmente – como os judeus na “diáspora” – e destituir a plenitude desta cidadania dos israelenses. Sofri muito querendo ter o direito de ser judia e brasileira, apenas.

Não existe diáspora, é uma outra criação lacrimosa e milenar. Os judeus foram espalhados após a destruição do segundo Templo em Jerusalém? E daí, outros povos perderam territórios e se mantiveram culturalmente ou não. De qualquer forma, existem judeus morando (e muito bem) no Irã, no Líbano, no Brasil, nos Estados Unidos e em várias outras regiões do mundo. E existem judeus em Israel, que foi criada sobre os judeus europeus marcados pelos anos de genocídio polonês, russo e alemão. Mas havia um problema: os não judeus do protetorado inglês: ou venderam terras ou foram expulsos. Taí os palestinos. Bela criação.

Voltando à “nossa” saga. O Holocausto: terrível, dilacerante, um modelo perfeito de genocídio fordista, moderno, executado com primor pela disciplina alemã. Para que serve Israel? Para corrermos para lá caso se repita o holocausto nazista. Para que serve Israel? Para dizer ao mundo que ele não pode repetir o holocausto nazista. Isto eu aprendi na escola, ouvi nas sinagogas, ouvi dos mais velhos, dos mais novos, dos iguais, daqueles que repetiam (e repetem) este “conceito” como dogma ou crença.

Mas, se Israel serve para isso, então não é um país. É um porto-seguro de futuros holocaustos. Poupem-me: isto é um desrespeito à população israelense, um assassinato cultural de cidadãos. Perguntem aos moradores de Israel se consideram que sua existência tem como objetivo “nos proteger”? Será que trabalham, votam, plantam, fabricam, estudam e servem ao exército para nos proteger? Será que o Japão existe para que seus descendentes corram para lá em caso de perseguição? Ah, os japoneses não foram discriminados ao longo dos séculos. Beleza, nós fomos, e daí? Olhem em volta, não somos os únicos párias. Há várias histórias tristes. Querem umas bem fresquinhas? Os pobres dos morros cariocas e os palestinos da Faixa de Gaza e dos acampamentos miseráveis dos países árabes. Tem Ruanda, tem os índios das Américas, tem os negros escravizados por 400 anos no Brasil.

Voltando à vaca fria. Alguém já fez uma enquete e perguntou aos moradores de Israel se eles consideram seu país um pré depósito de judeus estrangeiros? Seria muito pouco e muito injusto. Não me imagino arando a terra brasileira pelos que estão ausentes, divertindo-se em seus países de origem, passeando, votando, trabalhando, amando, criando filhos e dando festas. Por favor, não somos exilados. Nem de longe, e nem por necessidade. Tive avós que vieram aos 20 anos, em navios imundos, sem falar a língua, sem estudo e aqui se estabeleceram, longe de seus shtels, dos cossacos, dos soldados vermelhos, dos nazistas e gratos à nova terra. Isto tudo dói? Dói muito. O Holocausto sangra ainda? Muito. E daí? Leiam o livro Os Irmãos Karamabloch, de Arnaldo Bloch, uma maravilha, ajuda um bocado.

O que isto tudo tem a ver com a política de extermínio promovida pelo Estado Israelense? Nada. Até hoje criticamos a Ditadura Militar aqui no Brasil? Temos críticas aos governos dos Estados Unidos, França, Argentina, China, aos nossos governos? E por que não podemos escutar as vozes dos soldados israelenses que se recusam a lutar ou servir em territórios ocupados? Por que não podemos considerar que bombardear hospitais, casas, universidade para “caçar terroristas” é um delírio militar? Por que não podemos ficar estarrecidos como fato de o governo israelense não ter reconhecido o Hamas como representante eleito pelos palestinos e ter imposto um embargo econômico, na verdade um cerco de guerra, deixando a região sem água, sem comida, sem direitos civis, políticos, sem nada? Por que aceitamos que Israel não cumpra os acordos diante de manifestações bélicas de quinta categoria (não por isso menos letais e assassinas) do ponto de vista militar, como homens bomba e mísseis mambembes? Se fosse assim, guerras jamais terminariam.

Isto não tem nada a ver com ser ou não sionista e muito menos com preconizar o fim do Estado de Israel. Outro delírio. Invasões e ocupações estão na história, não costumam ser revistas, mas não se abafa esta história com o extermínio dos que foram desocupados ou expulsos. Lamento se palestinos reivindicam o fim do Estado de Israel, é um direito, e uma posição ideológica ou fundamentalista, uma estratégia de propaganda ou um desejo coletivo, sei lá, mas não muda os fatos estabelecidos. O Estado de Israel é um fato estabelecido. Entretanto, na verdade, quem está pondo em prática o fim do suposto Estado Palestino é Israel. De fato, com todas as cores e, o que é mais importante, com todas as armas, inclusive os bumerangues: mísseis e homens-bomba.

Vamos tentar ajudar Israel a parar com isso. Conclamo os judeus – sionistas, progressistas, religiosos, leigos, laicos, chassidim, ashkenazim, sefardim, seja lá o que forem – a não aceitarem a política de Israel. Reivindico que todos tenham o direito de dizer não. Não aceitamos a matança do povo palestino. Não aceitamos o embargo. Queremos que os acordos sejam cumpridos. Queremos que a Onu condene as ações bélicas de Israel e, agora, envie forças militares para conter o exército de Israel enlouquecido. Vamos ouvir as vozes isralenses que dizem não ao seu governo. Que elas possam chegar urgente ao poder, com nosso apoio judaico. Com certeza, um dia, quando houver respeito às deliberações da cultura palestina, os atentados de homens-bomba serão história.

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